Eu nunca soube exatamente em que momento isso começou. Não foi algo que aconteceu de uma vez só, como uma escolha consciente, dessas que a gente senta e decide quem quer ser. Foi mais silencioso que isso. Mais lento. Como se, aos poucos, certas coisas fossem me escolhendo antes mesmo de eu entender.
Eu lembro de ser pequena e sentir uma atração estranha por coisas que, para muita gente, pareciam escuras demais. Enquanto outras crianças se encantavam com cores claras, histórias felizes e finais perfeitos, eu me pegava olhando para o que era diferente. O que era mais profundo. O que tinha uma sombra por trás. Não era tristeza. Nunca foi. Era… interesse. Uma curiosidade quase impossível de explicar.
E talvez tenha começado ali, nos detalhes que ninguém percebia.
Meu tio Vando sempre teve aquele jeito que chamava atenção. As músicas que ele ouvia, o estilo, aquela energia mais intensa, mais verdadeira, sem tentar agradar ninguém. Meu pai também, de alguma forma, carregava isso. E minha tia Belízia… ela tinha uma presença que ficava. Não era só aparência, era algo além. Era atitude, era identidade.
Eu cresci vendo tudo isso de perto, sem saber que aquilo estava, aos poucos, moldando quem eu me tornaria. Não era algo imposto. Ninguém nunca chegou para mim e disse “seja assim”. Mas estava ali. Nas músicas que tocavam, nos olhares, na forma de existir.
E eu fui absorvendo.
Quando eu penso hoje, parece tão óbvio. Mas naquela época, eu só sentia.
Eu lembro de ouvir músicas de rock e sentir algo diferente no peito. Como se aquelas letras, aquelas guitarras, aquele peso… conversassem comigo de um jeito que eu nem sabia explicar. Era como se tivesse algo ali que fazia sentido, mesmo sem palavras.
E os filmes… os filmes sempre tiveram um lugar especial. Não eram só histórias. Eram mundos. Mundos sombrios, intensos, às vezes estranhos, às vezes incompreendidos. Mas que, de alguma forma, me acolhiam.
Enquanto muita gente via medo, eu via beleza.
Enquanto viam escuridão, eu via profundidade.
E isso nunca fez muito sentido para quem estava de fora. Mas dentro de mim, fazia tudo.
Por volta dos meus dez, onze, doze anos… foi quando isso começou a aparecer mais do lado de fora. Como se aquilo que já existia dentro de mim finalmente estivesse encontrando uma forma de se mostrar. O estilo começou a mudar. As roupas, os gostos, a forma de me expressar.
E não era sobre chamar atenção. Nunca foi.
Era sobre me reconhecer.
Era como olhar no espelho e, pela primeira vez, sentir que aquilo ali fazia sentido com o que eu sentia por dentro.
Mas o mais curioso é que, mesmo com o tempo passando, mesmo com fases diferentes, mesmo com momentos em que eu não estava visualmente naquele estilo… isso nunca foi embora.
Porque não é só um estilo.
É algo que ficou em mim.
Hoje eu entendo isso de uma forma muito mais clara. Eu posso até não estar vestida de preto todos os dias. Posso variar, posso mudar, posso me adaptar. Mas existe uma parte de mim que nunca mudou.
Minha alma é gótica.
E isso não tem a ver só com estética.
Tem a ver com o que me atrai.
Eu gosto do que é profundo. Do que não é superficial. Do que tem história, do que tem intensidade, do que carrega emoção. Eu gosto de coisas sombrias, não no sentido de tristeza, mas no sentido de verdade.
Eu amo o Halloween de um jeito que não é só pela data. É pela atmosfera. Pelo clima. Pela sensação de que, por um momento, o mundo permite que o diferente exista sem julgamento. Que o estranho seja bonito. Que o mórbido tenha espaço.
Eu amo filmes de terror, não pelo susto, mas pela experiência. Pela forma como eles mexem com emoções, com medos, com o que a gente guarda lá no fundo. Tem algo nisso que me prende, que me envolve, que me faz sentir viva.
E às vezes eu paro e penso em como tudo isso construiu quem eu sou hoje.
Não foi só gosto.
Foi formação.
Cada música, cada filme, cada referência… tudo foi deixando marcas. Pequenas no começo, quase imperceptíveis. Mas que, com o tempo, foram se juntando e criando algo maior.
E talvez o mais bonito de tudo isso seja perceber que eu nunca precisei forçar.
Nunca precisei fingir.
Nunca precisei me encaixar em algo que não era meu.
Isso sempre foi meu.
Mesmo quando eu não sabia explicar.
Mesmo quando não entendiam.
Mesmo quando parecia estranho.
E tem uma liberdade enorme nisso.
Porque quando algo é realmente seu, você não perde. Você pode até mudar por fora, pode experimentar coisas novas, pode viver outras fases… mas aquilo continua ali.
Intacto.
E hoje, quando eu olho para mim, eu vejo muito mais do que um estilo. Eu vejo uma história sendo construída desde cedo, sem pressa, sem rótulos forçados, sem necessidade de aprovação.
Eu vejo influência, eu vejo memória, eu vejo sentimento.
Eu vejo o meu tio Vando em algumas músicas que ainda mexem comigo.
Eu vejo meu pai em certos gostos que ficaram.
Eu vejo minha tia Belízia em detalhes que eu nem percebo, mas que estão ali.
E eu me vejo.
Não como alguém que escolheu ser assim, mas como alguém que simplesmente se permitiu ser.
E talvez seja isso que mais importa no fim.
Não é sobre seguir um estilo.
Não é sobre se encaixar em um rótulo.
É sobre reconhecer o que sempre fez sentido dentro de você, mesmo quando ninguém mais entende.
É sobre aceitar que você pode ser diferente… e ainda assim estar exatamente onde deveria estar.
Porque, no fundo, não importa se eu estou vestida de preto hoje ou não.
Não importa se alguém olha e reconhece esse estilo em mim.
O que importa é que eu sei.
Eu sei quem eu sou quando ninguém está olhando.
Eu sei o que me atrai, o que me emociona, o que me representa.
E isso ninguém tira.
Talvez a vida seja um pouco isso.
Um processo silencioso de se encontrar nas próprias sombras… e perceber que elas também fazem parte da luz.
E que, no meu caso, essa luz sempre teve um tom mais escuro.
E tudo bem.
Porque é nela que eu me reconheço
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